Deborah Colker – O cão sem plumas – uma crítica à luz da semiótica psicanalítica

Os espetáculos da Deborah Colker sempre tiveram o poder de me levar a um estado de entorpercimento emocional, um certo arrebatamento que me desfazia em lágrimas. Foi assim com Cruel, foi assim com Casa, foi assim com 4 por 4, com Nó e foi assim com a abertura das Olimpíadas. 

Entrei no Teatro Alfa esperando sair de lá com os olhos vermelhos, mas não foi isso o que aconteceu… O cão sem plumas teve um outro efeito, que vai da agonia à beleza da primitividade humana

Faço aqui uso da Semiótica Psicanalítica para trazer sobre a obra uma visão diferente do que tem sido publicado até agora. Claro que sendo a dança e a poesia linguagens conotativas, estas dependem das minhas experiências para serem completas. Então, pode ser que o que eu escreva aqui você não concorde, e tudo bem. Juro.

O espetáculo começa com a cena linda de um dançarino solitário. No telão, surge a cena da seca que assola o Rio que representa o Capibaribe, descrito pelo autor pernambucano em seu poema.

O dançarino solitário dá lugar às cenas agoniantes da seca, outros dançarinos lameados se arrastam pelo palco, a trilha fica intensa e aquela cena se repete ao ponto de você querer sair correndo do teatro.

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Isso não é ruim. Na verdade, é genial. Pois tanto João Cabral de Melo Neto, quanto Deborah Colker, retratam o real do ser humano, explícito como ele é, agoniante como ele é. A falta de sentido, a falta de água, o sol rachante, tudo isso cria um cenária inóspito e perturbador. Deborah Colker conseguiu passar visualmente o que o autor escreveu.

Enquanto os dançarinos se arrastam de um lado a outro do palco, ouvimos uma locução de palavras como cidade, rio, rua, água, cão etc. Aqui, tenho tanto a visão da condição humana de se arrastar na vida em busca de algo, de um rio, de uma fonte, já que é água a fonte de vida. Já que foi da água que surgiu a vida. 

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O espetáculo O cão sem plumas também brinca com a camuflagem. Tua visão pesa porque você não sabe se olha para as fortes imagens do telão ou para os movimentos graciosos dos bailarinos. Ora se complementam, ora se distorcem, ora são a mesma coisa. Afinal, num é isso que faz o autor?

“A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.”

Fica clara a exposição da natureza humana, do real humano, o real psicanalítico, que vem para jogar em nossa cara que estamos fadados ao fim. Mas o rio segue, contorna a pedra jogada no meio do caminho e flui. Tem de fluir. É da sua natureza dele como rio,  é da nossa natureza como ser que evolui, que se adapta às mais diversas condições.

O homem ribeirinho e o homem da seca são como esse rio que contorna suas pedras, suas dificuldades de um jeito que nem ele sabe até que ponto ele é bicho, até que ponto ele é rio, até que ponto ele é homem. Tudo se camufla. Ao mesmo tempo em que tudo se conecta.

Trago aqui também a ideia da conexão, percebi isso. Porque acredito que estamos todos ligados: natureza, homem, bicho. Somos bicho. Somos natureza. E mais do que isso: somos cão sem plumas.

Plumas. Quando falo isso me vem à mente aquele pavão orgulhoso e pomposo, sabe? Temos aqui a representação do imaginário psicanalítico. Nos enchemos de plumas sendo cão, sendo rio, sendo gente.

Quais são as plumas que nos enfeitam? São tantas: o título, o carro, a viagem, o cargo e o principal ninguém repara, ou simplesmente ignora. Como ignorar o rio que passa? Ou o cão que atravessa a rua? Ou o real da nossa natureza humana, nosso instinto, nossa libido?

Somos selvagens domesticados pela natureza, caranguejos no mangue. Quase morri no mangue uma vez. A lama me sugou e sugou e eu só conseguia pensar na Barbie que eu tinha acabado de ganhar e não ia aproveitar nada.

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A gente pensa que anda pra frente, mas anda de lado. Sai do rio, em busca de um significado, em busca de plumas que nos enfeite, e depois voltamos: para a lama e para o rio. Um belo discurso sobre a morte, logo ela, a face mais cruel do real.

Quando vi aquele homem negro tomando todo destaque da seca, deixamos de ver seca para observar a negritude. A bela negritude. Como se fosse ela problema maior que a própria seca. Mas nem tem rio. Secou. E assim damos prioridade a “problemas” que nem são problemas.

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O que acho mais incrível é quando o mesmo homem negro, sujo de lama, aparece entre tantos outros dançarinos também sujos de lama. Ali temos um claro sinal de igualdade entre homens, que vai além do racial. O real, explícito como ele é, traspassa a etnia. Vem para todos. Não dá pra fugir.

“Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.”

Quando finalmente temos o contraponto, saímos da seca para mostrar o excesso de água, aquela agonia inicial se transforma na agonia da gota que cai, incessante para depois ganhar ritmo e virar batida. E num é que são as batidas do coração?

Tum tum. Tum tum. Tum tum.

Os corpos dançam, se entrelaçam, se arrastam.

Tum tum. Tum tum. Tum tum.

Vemos as palafitas, provavelmente uma clara alusão às palafitas de Pernambuco. Como pode seca e tanta água num mesmo lugar? Entre a falta e o excesso, não falta miséria. Não só a miséria clara que a economia proporciona (ou desproporciona?), mas a miséria da busca incessante de plumas que nos enfeite a alma, quando na verdade, sobra lama.

“Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.”

Eis o final, o desfecho. Aqui, já estava babando a mente brilhante da Deborah Colker, pensando, como sempre, como ela consegue unir todos esses movimentos?

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De um lado a outro os dançarinos empurravam os alicerces das palafitas, aquelas “grades” de madeira que ficam dentro da água. Parecia um barquinho, ora navegando, ora sendo levado pelas correntezas, ora preso dentro de si. Aqui tive a percepção das emoções, que no final de tudo, na nossa experiência pela vida, é isso o que importa: o que sentimos.

É normal que as águas se agitem. É normal que elas fiquem tranquilas. É normal se libertar e correr para o mar. Faz parte da vida. Vai ver nada tem significado. Nada precisa ter um significado, as plumas que enfeitem a vida, as ideologias, as religiões. Vai ver só precisamos viver, sentir e morrer. Porque este é o real, explícito como ele é. Rio como ele é.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

 

 

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